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Os 32 anos do Primeiro Comando da Capital (PCC)

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Os 32 anos do Primeiro Comando da Capital (PCC)

De Taubaté à Faria Lima: a trajetória de 32 anos do Primeiro Comando da Capital

De Taubaté à Faria Lima: a trajetória de 32 anos do Primeiro Comando da Capital
Análise sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC)
Autoria: Eduardo Armando Medina Dyna
O Primeiro Comando da Capital (PCC) é uma organização criminal, presente em quase todas as Unidades Federativas (UF) do Brasil e em alguns países da América Latina, atuando em diversas atividades legais e ilegais. O PCC surgiu no dia 31 de agosto de 1993, na casa de custódia de Taubaté, uma prisão no interior de São Paulo, em um contexto marcado pela união de presos que se auto-organizaram para demandar melhores condições no sistema penitenciário, contra a violência estatal dos agentes e a brutalidade impostas aos presos na década de 1990, além de interesses que beneficiam os “fundadores do PCC” e os presos.
Durante a década de 1990, o PCC foi expandindo seu poder lentamente dentro do sistema carcerário, tendo sua existência negada pelas autoridades da época, mas marcado pela violência extrema, autoridade dos “generais” (que eram os primeiros fundadores e líderes do PCC) e discursos e práticas que uniam as massas carcerárias para os ideais desta nova organização: Paz, Justiça e Liberdade (PJL) para os presos. O PJL é um ideal que não surgiu com o PCC, mas com a facção carioca Comando Vermelho (CV), o que auxiliou na organização dos presos e no planejamento de suas ações ao longo dos anos.
Em 2001, ocorreu a aparição e confirmação pública do PCC. Em fevereiro daquele ano, foi deflagrada a 1ª mega rebelião nos presídios em São Paulo, rebelando-se ao mesmo tempo, quase 30 unidades, levando as autoridades a confirmar a existência de uma organização de presos dentro do cárcere paulista. Entre 2002 e 2003 houve mudanças internas na estrutura política dessa facção, com os antigos “generais” - que promoviam uma organização autoritária entre aqueles que mandam e os que obedecem - sendo expulsos por uma nova ala que ascendia ao comando do PCC. Neste caso, os “generais” César Augusto Roriz da Silva, vulgo Cesinha e José Márcio Felício, sob codinome de Geleião, foram expulsos do PCC, da qual eles foram os fundadores, com acusações gravíssimas e ausência de apoio interno, sendo decretada sua morte pela sua antiga organização.
Essa nova corrente tinha como um dos principais nomes Marcos Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola, levando o grupo de membros a alterar sua organização interna, seus lemas e concepções discursivas e suas atividades econômicas e criminais. Dessa forma, o lema PJL foi alterado, acrescentando a “Igualdade” e “União”. A primeira visava uma maior igualdade entre os presos e suas posições de poder e a segunda pregava a união, reiterando a unidade para evitar rachas internos, como aconteceu entre 2002 e 2003. Ademais, novas dinâmicas criminais foram consolidadas a partir daí, ou seja, o tráfico de drogas começou a ser o principal aspecto econômico-criminal empreendido pelos membros do PCC, substituindo, em parte, outras práticas criminais, como assalto a banco e sequestros nessa transição ao longo da década de 2000.
O caso mais famoso do PCC, com sua nova reestruturação organizacional, foram os eventos de 2006, mais precisamente em maio, quando houve a 2ª mega rebelião nos presídios de São Paulo e outras UF vizinhas. Nesta ocasião, mais de 70 unidades foram rebeladas simultaneamente pelos detentos e integrantes do PCC, alegando diversas pautas: contra o envio das lideranças e membros da facção para um regime diferenciado com maior controle e sem direitos básicos para punir os detentos, a demanda por melhores estruturas no cárcere e pelo cumprimento de direitos básicos, além de outras pautas. Essa mega rebelião foi seguida por ataques contra policiais, prédios públicos e determinadas empresas privadas (como os bancos) e também com queima de ônibus em diversas cidades paulistas.
Os “ataques de maio” seguiram com o assassinato de dezenas de policiais por parte da política do PCC em ordenar matar esses profissionais da segurança pública. Como resposta, os agentes policiais e outros à paisana, confrontaram e mataram centenas de pessoas em diversos locais, mas principalmente, em periferias e locais onde os policiais foram mortos. Essa onda de violência, que foi transformada em onda de vinganças, vitimou quase 500 pessoas em vários registros, criando um cenário atípico de medo, insegurança e toques de recolher ordenados pelo próprio crime. Muitas das vítimas desses conflitos não pertenciam ao PCC e/ou às forças policiais, como moradores das periferias e parentes de policiais, evidenciando o período de medo na história recente de São Paulo.
Após o conturbado ano de 2006, as consequências foram vastas. A partir de 2006 (com exceção em 2012) os índices de homicídios vêm caindo respectivamente em São Paulo até os dias atuais, levantando várias hipóteses para explicar essa questão. Uma das causas foram as políticas de regulação e produção de ordem do PCC nas periferias urbanas em São Paulo. Em territórios sob a influência do PCC, havia salves [ordens] proibindo a morte avulsa de pessoas (seja ela no crime ou não) sem o aval do PCC, isto é, só se poderia matar alguém se fosse aprovado pelo grupo e quem desobedecesse poderia ser punido. Esse fenômeno ficou conhecido como “pacificação”, sendo uma das primeiras tentativas, de forma geral, da produção de ordem e governança criminal do PCC em São Paulo. De lá para cá, outras ordens foram produzidas, mas em determinadas territorialidades (periferias específicas ou prisões) e temporalmente especificadas, criando relações diferentes entre a percepção das populações nos territórios sob influência da ordem criminal do grupo e os agentes do PCC.
A partir de 2010, concomitante ao explicado anteriormente, houve os processos de nacionalização e o Projeto Paraguai, modificando o cenário do crime organizado no Brasil. O PCC foi se expandindo para outras UF, filiando novas pessoas, fazendo relações de parceria estratégica com outras facções e tornando-se inimigos de muitas. Essa conjuntura foi sendo alimentada pelo processo semelhante do CV, que também tinha suas relações de amizade e rivalidade construídas ainda na década de 2000. A relação entre PCC e CV, que até 2016 eram de uma “paz armada”, se encerrou após a morte do “rei da fronteira”, Jorge Rafaat, um dos principais traficantes da fronteira Brasil e Paraguai (entre a UF do Mato Grosso do Sul e departamento de Amambay), na busca pelo domínio fronteiriço e pela circulação de mercadorias criminais entre os países vizinhos e o Brasil.
A morte do “rei da fronteira” estava sendo planejada por ambas as facções, com ambas planejando a morte de Jorge Rafaat para assumir o controle na fronteira. Contudo, foi o PCC que se beneficiou do vácuo deixado e foi se estabelecendo nos limites entre os países, com forte inserção no Paraguai, sendo nos dias atuais, um dos principais problemas na segurança pública e nas prisões paraguaias. A fronteira binacional é de suma importância para a busca pelas principais rotas comerciais de drogas, que abastecem o mercado consumidor interno e externo, visto que o Paraguai é um dos maiores produtores de maconha do mundo e os países andinos como Colômbia, Peru e Bolívia produzem os derivados da folha de coca.
Esse processo de produção de substâncias psicoativas, sua circulação e recepção para mercados consumidores, passa por duas rotas principais em território brasileiro: 1) Rota Caipira: Caminho que sai do Paraguai e passa por várias UF do Centro-Oeste e Sudeste (além de ligar com outros mercados e organizações no sul do Brasil) até os portos do litoral de São Paulo, abastecendo no varejo as organizações criminais adjacentes às fronteiras dessas UF, integrando uma via do Paraguai até o litoral do Sudeste. A rota caipira tem as vias rodoviárias e aéreas como seus principais eixos; 2) Rota Solimões: Trecho que liga a Amazônia ocidental e países vizinhos (Peru, Bolívia e Colômbia) para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, até os portos da costa brasileira, abastecendo o tráfico de varejo das facções nessas localidades. A rota Solimões tem as vias fluviais e aéreas como suas principais formas de circulação.
A disputa por territórios, o controle de rotas, a exploração do tráfico de drogas e sua exportação (ligadas mais ao PCC e em menor grau ao CV) auxiliaram na construção de alianças de facções que formaram uma “geopolítica” da criminalidade organizada. Esses blocos eram protagonizados pelo conflito entre o Tudo 3 (aliança entre o PCC e aliados) e o Tudo 2 (alianças entre o CV e aliados), o que desencadeou, a partir de 2016, em diversos conflitos e massacres nas periferias e prisões do norte e nordeste. Entre 2017 e 2019 foi o momento de auge dos confrontos entre o Tudo 3 e Tudo 2, com cenas de selvageria nos presídios de várias regiões do Brasil, com casos de massacres de mais dezenas de mortos que tiveram seus corpos vilipendiados, que em outras palavras, os corpos resultantes dos confrontos entre as alianças criminais foram desmembrados, decapitados, queimados e zombados, recebendo como “troféu” que cada vez mais alimentou o ódio, vingança e covardia entre os presos dessas organizações. Esse período foi marcado com as maiores chacinas prisionais em UF do Amazonas, Roraima, Rio Grande do Norte e Pará por exemplo.
Na década de 2020, o PCC foi se transformando, conforme também as mudanças das dinâmicas criminais e as novas tecnologias, passando a operar em diferentes atuações econômicas legais e ilegais, além de modificar suas formas de atuação. Neste contexto, o PCC, juntamente com outros tipos de criminalidade organizada e criminalidade avulsa (pessoas que atuam no crime mas não estão organizadas em facções), passam a cometer, com maior frequência, golpes online, modalidades de “novo cangaço” (roubos a bancos com maior tecnologia e planejamento, com uso de escudos humanos e drones), extorsão em terras indígenas e extração do garimpo ilegal e de outras riquezas naturais, lavagem de dinheiro com uso de criptomoedas e bancos digitais, exportação de drogas para outros continentes e diversificação econômica em mercados legais.
Todo esse montante de frentes econômicas demonstra que, em São Paulo, o PCC está construindo uma nova “fase” em sua história. O acúmulo de capital econômico oriundo de atividades criminais do tráfico de drogas e outras criminalidades produziu um cenário de integração aos mercados legais, como forma de lavar o dinheiro “sujo” do tráfico e investir em outras economias e mercadorias. A lógica do lucro e do PCC “empresa” vem sendo fortalecida, havendo negociações e relações com empresas do mercado financeiro, fintechs, bancos, empresários, além de múltiplos empreendimentos com suspeita e/ou investigados pela inteligência policial e fruto do trabalho de pesquisadores, investigadores, operadores do direito e policiais, como divulgado na operação Carbono Oculto do dia 28 de agosto de 2025 e que resultou em outros desdobramentos.
Portanto, o PCC com 32 anos de existência ainda é uma organização complexa que não opera, apenas, em territórios periféricos ou prisões espalhadas pelo Brasil. A sua atuação é também verificada em circuitos econômicos, como no centro financeiro da Faria Lima, em alianças com outras facções brasileiras (como o Tudo 3), mas também com parcerias pontuais com organizações criminais estrangeiras, como as máfias italianas da Camorra, 'Ndrangheta e Cosa Nostra. É importante destacar que o PCC tem interesses diferentes que determinam sua atuação, estratégia e realidade que se encontra, diante disso, o PCC na região norte disputa a rota Solimões e atuou em terras indígenas no garimpo ilegal, gerindo uma governança autoritária e com interesses específicos, o que difere da região de fronteira, pois além de uma inserção entre o Brasil e Paraguai, há relações e contatos com outros atores - legais e ilegais - para manter seus interesses em funcionamento. O PCC em regiões do norte e nordeste, territórios com inserção e filiação de pessoas ao grupo no período recente, configura-se de uma maneira específica, com conflitos, violências, mortes e insegurança para toda a população desses locais, gerando instabilidade constante.
Por fim, o PCC em São Paulo atua de uma maneira ambivalente, ora está produzindo ordem e regulando as relações sociais na prisão e em determinadas periferias, muitas vezes tendo percepções da população de forma diferente, com legitimidade e negação à sua ordem criminal, ora está na exploração de negócios, mercadorias e empreendedores (legais e ilegais), gerando lucro bilionário pela exportação de drogas e incorporação nos mercados legais, gerando um cenário instável para ser analisado por essas óticas. Essa complexidade pode ser caracterizada por uma “natureza” PCC, podendo ser analisada em diferentes prismas, que em muitos casos, é contraditória entre si, mas que destaca esse seu “atributo”.
O PCC conseguiu sobreviver nesses 32 anos pela exploração das contradições da realidade, haja vista que ele não é externo à sociedade e incorpora o que é produzido e de acesso a todos. Para um combate ao crime de maneira coerente, sem a necessidade de violência repressiva não planejada, é necessário um maior entendimento sobre o que é o crime organizado, quais são suas frentes, quais são suas estratégias, quem são seus parceiros e como o PCC consegue explorar e incorporar ao seu próprio interesses as contradições da realidade, da desigualdade social, das violências, da precariedade do mundo do trabalho, do sistema político, da justiça e das leis, das tecnologias, das instituições estatais, da segurança pública e forças policiais, dos governos, parlamentares e agremiações políticas, dos empresários e da busca pelo lucro, para que assim seja traçado um planejamento de atuação efetiva.
A segurança pública, o crime e o PCC são assuntos fundamentais e devem ser incorporados à pauta política daqueles que buscam um mundo melhor. Compreender essas questões é o primeiro passo para superarmos as contradições e criarmos uma realidade sem as amarras desses problemas!
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia na UFSCar. Mestre em Ciências Sociais pela UNESP de Marília. Pós-graduado em Políticas Públicas e Projetos Sociais pelo Senac/SP. Pesquisador do Observatório de Segurança Pública e Laboratório de Análise de Realidades Virtualizadas, ambas pela UNESP, e do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da UFSCar. E-mail para contato: [email protected]
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