Golpes, embargos e hipocrisia: a falência das instituições internacionais e o futuro da América Latina — Escrito pelo sociólogo Vinicius Pereira
Os recentes ataques, ameaças e movimentações dos Estados Unidos contra a Venezuela não são episódios pontuais, tampouco “tensões diplomáticas” como tenta vender a grande imprensa internacional. Trata-se de mais um capítulo de uma política histórica de dominação imperialista, marcada por intervenções militares, chantagem econômica e desrespeito sistemático à soberania de países que se recusam a obedecer aos interesses do Norte Global. Bombardear nações, sequestrar lideranças ou impor sanções que condenam populações inteiras à fome e à miséria não é defesa da democracia, é crime internacional, ainda que cometido por quem se autoproclama guardião do mundo livre.
É possível e necessário afirmar, sem qualquer romantização, que Nicolás Maduro é uma figura controversa. Há críticas legítimas à sua condução política, inclusive vindas de setores da própria esquerda venezuelana, que denunciam práticas autoritárias, erros econômicos e concentração de poder. Fingir que essas críticas não existem é intelectualmente desonesto. No entanto, aceitá-las não significa, em hipótese alguma, legitimar ataques externos, bloqueios econômicos, sequestros ou ameaças militares. Quando os Estados Unidos decidem intervir, não o fazem em nome do povo venezuelano, mas em defesa de seus próprios interesses geopolíticos e econômicos. A democracia nunca foi o objetivo, o controle sim.
Esses acontecimentos escancaram a falência moral dos organismos internacionais criados no pós-Segunda Guerra Mundial. Instituições que deveriam garantir a autodeterminação dos povos operam de maneira seletiva, conivente e profundamente desigual. Há países para os quais a lei internacional vale com rigor; para outros, aliados estratégicos, ela simplesmente não se aplica. O discurso da legalidade internacional é uma farsa conveniente, acionada apenas quando serve aos interesses das grandes potências. A justiça global tem lado, tem endereço e tem donos.
A Palestina é talvez o exemplo mais brutal e prolongado dessa hipocrisia. Há décadas, o Estado sionista de Israel mantém um regime colonial, de apartheid e extermínio contra o povo palestino, com o respaldo explícito ou silencioso das mesmas potências que hoje se dizem preocupadas com a Venezuela. O discurso da “autodefesa” funciona como uma licença para matar, expulsar e destruir. O que ocorre na Palestina ajuda a compreender o que está em curso na Venezuela: trata-se do mesmo projeto de dominação, aplicado conforme o contexto, mas sustentado pela mesma lógica de violência e impunidade.
Essa leitura se tornou ainda mais concreta durante minha ida a Cuba, em 2025, por meio do Projeto Insurgente e do Instituto Formando Mentes Coletivas. Foram 17 dias convivendo com a realidade de um país que sofre, há mais de 60 anos, um embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. Um bloqueio criminoso, que não é retórico nem simbólico: ele se expressa na falta de medicamentos, alimentos, insumos básicos e condições dignas de vida. Não se trata de “ineficiência do sistema”, como repetem os manuais neoliberais, mas de uma política deliberada de asfixia econômica. O embargo não pune governos, pune povos inteiros, na tentativa de dobrá-los pela fome e pelo desespero.
Ainda mais alarmante é perceber como parte da sociedade brasileira naturaliza — e por vezes celebra — esse tipo de violência quando ela acontece fora de nossas fronteiras. Se o presidente Lula fosse sequestrado hoje, não faltariam brasileiros aplaudindo. Da mesma forma, há quem comemore a possível queda de Maduro como se isso representasse, automaticamente, a libertação do povo venezuelano. Não representa. Nenhum povo é homogêneo, e transformar manifestações pontuais em “vontade geral” é uma estratégia clássica de manipulação política e midiática. O mesmo vale para aqueles que vibraram quando Donald Trump aumentou tarifas contra o Brasil, mesmo sabendo que isso significaria desemprego, inflação e precarização da vida. O colonialismo internalizado faz com que alguns prefiram ver o próprio país sangrar a questionar a lógica do poder imperial.
É crucial, portanto, romper com a ilusão de que os modelos de esquerda instituídos na Europa darão conta da nossa realidade. O socialismo latino-americano diverge em sua essência porque precisa enfrentar a questão racial, indissociável da nossa luta de classes. A recente declaração de Donald Trump, classificando os venezuelanos como um “povo feio”, não é apenas um insulto estético, mas a expressão crua do racismo que orienta a dominação imperialista. Para o Norte, somos subalternos não apenas economicamente, mas existencialmente. Reconhecer esse componente racial é fundamental para a formação de frentes de resistência coordenadas em todo o Sul Global. Se não entendermos que o desprezo por Caracas é o mesmo desprezo por Brasília ou La Paz, cairemos um a um. Hoje a vítima é a Venezuela; amanhã, inevitavelmente, seremos nós.
É preciso dizer de forma direta: a saída para a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras do mundo não virá pelas mãos do imperialismo norte-americano. Nunca veio e nunca virá. Esse sistema se sustenta justamente da desigualdade, da guerra, do saque de recursos naturais e da submissão política dos povos do Sul Global. Esperar que ele nos salve é aceitar a condição de colônia eterna.
Diante disso, a união da América Latina e do Sul Global não é um romantismo ideológico, mas uma necessidade histórica. Defender a soberania da Venezuela, de Cuba, da Palestina, do Brasil ou de qualquer outro povo atacado não é um gesto distante de solidariedade: é defesa própria. Ou nos reconhecemos como parte de um mesmo campo de luta, ou continuaremos sendo alvos fáceis de um sistema que só sabe existir explorando e destruindo.
Mestrando em Docência para Educação Básica pela Faculdade de Ciências da UNESP Bauru. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais pela UNESP de Marília. Produtor Cultural no Instituto Formando Mentes Coletivas.
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