Entre fé performática, cálculo eleitoral e descaso com a vida, caminhada bolsonarista termina com dezenas de feridos após queda de raio em Brasília, no último domingo, (24)
por Andrezza Marques
O que era anunciado como um ato “pela liberdade” terminou como um retrato perturbador da política-espetáculo no Brasil. No domingo, 24 de janeiro de 2026, uma manifestação organizada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), em Brasília, resultou em mais de 70 pessoas feridas após a queda de um raio durante uma tempestade que atingiu a Praça do Cruzeiro, no Distrito Federal. O episódio escancarou não apenas a fragilidade da organização do ato, mas também os limites éticos de uma liderança política que, em nome de engajamento e visibilidade, expôs civis, inclusive crianças, a riscos concretos.
A manifestação marcou o encerramento de uma caminhada iniciada em 19 de janeiro de 2026, na cidade de Paracatu (MG). Ao longo de cinco dias, o deputado percorreu cerca de 240 quilômetros até a capital federal, mobilizando apoiadores sob o discurso de defesa da anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e da libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro. O trajeto, amplamente transmitido pelas redes sociais, foi convertido em uma narrativa épica e emocional, cuidadosamente construída para engajar seguidores — ainda que à custa da prudência.
Órgãos meteorológicos e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) haviam indicado riscos associados à continuidade da mobilização em condições climáticas adversas. A PRF, inclusive, encaminhou ofício ao gabinete do parlamentar recomendando medidas de mitigação de danos. Ainda assim, o ato foi mantido sob chuva intensa, ventos fortes e risco de descargas elétricas.
O resultado foi grave. Segundo o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, 72 pessoas receberam atendimento no local, sendo 30 encaminhadas ao Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) e ao Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). Oito vítimas apresentaram estado de saúde instável, com registros de queimaduras, torções e episódios de hipertermia associados às condições climáticas extremas.
Parlamentares da base do governo classificaram o episódio como “irresponsável do começo ao fim”. O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ), afirmou que os organizadores deveriam ter dispersado o ato diante da tempestade. Já o deputado Rogério Correia (PT-MG) responsabilizou diretamente Nikolas Ferreira pelo ocorrido. O vice-líder do governo, Alencar Santana (PT-SP), destacou que os alertas da Defesa Civil e dos órgãos meteorológicos foram ignorados, enquanto parlamentares do PSOL, como Erika Hilton (SP) e Fernanda Melchionna (RS), denunciaram o uso político do risco e defenderam responsabilização dos organizadores.
Nikolas Ferreira, por sua vez, minimizou o episódio. Em declarações feitas ainda no dia 24 de janeiro de 2026, após visitar feridos no Hospital de Base, classificou a queda do raio como um “incidente natural”, negando falhas de organização ou responsabilidade direta. O argumento, embora tecnicamente correto quanto à imprevisibilidade de fenômenos naturais, ignora um princípio básico da vida pública: liderar é antecipar riscos, não apenas lamentar consequências. O oposto do que parlamentares como Nikolas e o próprio Bolsonaro, fizeram durante sua trajetória política.
A tentativa de tratar o episódio como fatalidade revela algo mais profundo: a normalização da idiotização da política, na qual o espetáculo vale mais que a segurança, e o engajamento digital substitui a responsabilidade concreta. Não é um ponto fora da curva. O mesmo parlamentar que já defendeu a chamada “liberdade de ser idiota” e transformou provocações e ironias em capital político agora conduz multidões por rodovias e praças sob condições extremas, como se convicção ideológica fosse proteção contra a realidade física.
O ato final reuniu cerca de 18 mil pessoas, segundo levantamento do Monitor do Debate Político da USP, número bem inferior aos “quase 100 mil” anunciados pelo deputado. A discrepância ajuda a compreender o fenômeno: não se trata de força popular massiva, mas de mobilização performática, sustentada por narrativas de confronto permanente contra instituições, adversários políticos e, neste caso, até contra o bom senso.
No fim, o raio que atingiu manifestantes não foi apenas um evento climático. Foi um símbolo. Um alerta brutal sobre até onde vai a disposição de certos líderes em transformar a política em espetáculo, mesmo quando isso custa a integridade física de seus próprios apoiadores. Quando a irresponsabilidade vira método e o espetáculo vira projeto, o risco deixa de ser acidental e passa a ser coletivo.








