Com nova estrutura de governo aprovada na Câmara, Renato Purini, marido da prefeita, é nomeado secretário municipal; medida reforça críticas sobre favorecimento pessoal e falta de transparência
Por FMC-Comunica | Bauru (SP)
A Prefeitura de Bauru aprovou, em julho de 2025, uma profunda reforma administrativa que reestrutura o organograma do Executivo, cria três novas secretarias e amplia o número de cargos comissionados. A medida, liderada pela prefeita Suéllen Rosim (PSD), foi criticada por ampliar o poder político da chefe do Executivo e favorecer aliados próximos, incluindo seu próprio marido.
Entre as mudanças estão a criação das Secretarias de Governo, Comunicação e Habitação. A nova estrutura também eleva de 103 para 121 o número de cargos de livre nomeação, todos sem concurso público, e cria dezenas de novas funções de assessoria e coordenação. Para a oposição, trata-se de uma "máquina de propaganda e controle político" sustentada com dinheiro público.
O cargo mais estratégico da nova estrutura, a Secretaria de Governo, foi entregue a Renato Purini, marido de Suéllen Rosim. Ele passa a coordenar a articulação política da prefeitura com a Câmara, o Estado e outros setores. A nomeação causou polêmica não apenas por ser um caso evidente de nepotismo político, mas também por envolver um personagem com histórico de condenação por improbidade administrativa.
Purini havia sido afastado da presidência do Departamento de Água e Esgoto (DAE) após decisão judicial em ação movida pelo sindicato dos servidores. Após pagar quase R$ 1 milhão em dívidas com o erário, ele retornou ao cargo e, pouco depois, foi promovido à nova secretaria, um movimento que gerou fortes críticas por parte de juristas e servidores.
A tramitação do projeto na Câmara Municipal ocorreu em tempo recorde e ignorando etapas básicas do processo legislativo. A base aliada da prefeita aprovou a proposta sem que todas as comissões permanentes emitissem pareceres técnicos — alguns foram dados oralmente, na hora da votação. A Comissão Interpartidária, controlada pela oposição, sequer teve permissão para analisar o texto.
“Estamos sendo atropelados”, declarou o vereador Segalla (União Brasil), que comparou o avanço da base governista a uma escalada de autoritarismo. O presidente da Câmara, Markinho Souza (MDB), admitiu desconforto, mas alegou pressão da base da prefeita.
A nomeação de Purini também reabriu o debate sobre o nepotismo na cidade. A Lei Municipal 4.411/1999 proíbe a nomeação de cônjuges para cargos na administração pública. Já a defesa da prefeita se apoia na jurisprudência do STF, que entende que secretários são agentes políticos e, por isso, estariam fora do alcance da vedação. A questão, no entanto, está em revisão no Supremo — o que pode virar o jogo.
O Sindicato dos Servidores (Sinserm) já acionou a Justiça contra o ato, lembrando que a própria prefeita já havia nomeado sua mãe para um cargo de primeiro escalão. O episódio, somado à nova nomeação do marido, consolida um cenário de concentração de poder familiar no núcleo da prefeitura.
Enquanto a nomeação de Purini levanta suspeitas, foi divulgada a entrada de Anderson Prado na Secretaria de Habitação. Prado, ex-prefeito de Lençóis Paulista, foi alçado à Secretaria de Habitação com o rótulo de gestor experiente, mas carrega um histórico questionável, entre promessas não cumpridas — como as 3000 casas populares que nunca saíram do papel — e uma gestão que nem de longe foi isenta de críticas. Já o engenheiro João Carlos Viegas assume o DAE, o que gera dúvidas por falta de transparência e sobre suas qualificações.
A reforma representa mais do que uma reorganização burocrática: revela uma estratégia deliberada de centralização de poder nas mãos da prefeita e seu círculo mais íntimo. Com secretarias voltadas à articulação política e ao controle da comunicação, a gestão Rosim reforça o controle sobre o orçamento, a pauta legislativa e a narrativa pública.
A medida foi vendida como modernização administrativa, mas analistas e opositores apontam que se trata, na prática, de um movimento político que amplia o domínio do Executivo sobre o sistema institucional da cidade. “É um jogo de poder que o povo paga para assistir”, resume uma crítica publicada pelo FMC-Comunica em cobertura anterior.
Enquanto isso, os custos da expansão de cargos comissionados, a falta de transparência nas nomeações e o atropelo ao rito democrático seguem sem respostas claras — e com impactos de longo prazo para a governança e a confiança da população em seus representantes.








