Cinco pessoas morreram, um casal foi executado na frente de quatro crianças em Bauru, que assistiram impotentes ao assassinato de seus pais por policiais em uma operação descontrolada na madrugada desta terça-feira, (16).
Cinco pessoas morreram, um casal foi executado na frente de quatro crianças em Bauru, que assistiram impotentes ao assassinato de seus pais por policiais em uma operação descontrolada na madrugada desta terça-feira, (16). O que a mídia oficial descreveu como "confronto" e "troca de tiros" durante a operação do GAECO, reforçada pela BAEP e ForçaTática na região de Bauru, envolvendo as cidade de Tupã e Garça, é denunciada pelos familiares e moradores do Acampamento Aliança como um ato de terrorismo de Estado e execução sumária.A tragédia é agravada pela revelação de que os agentes da Polícia Militar envolvidos não utilizavam câmeras corporais, violando diretrizes recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e aprofundando a suspeita de que a política de segurança do Governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) permite e acoberta a letalidade máxima contra a população mais vulnerável.
Segundo informações divulgadas pelo G1, baseada em informações policiais, os agentes cumpriam mandados de busca e apreensão e de prisão e tentaram justificar as mortes com a narrativa de que foram "recebidos a tiros". No entanto, relatos de moradores e de fontes próximas à comunidade contradizem a versão oficial. De acordo com essas testemunhas, os policiais chegaram ao acampamento ainda no início da manhã, em período de chuva, com as ruas desertas, e foram diretamente à residência de um casal supostamente investigado. Após abrirem a porta e confirmarem a identidade dos moradores, os agentes teriam iniciado os disparos. Testemunhas afirmam ter contado ao menos sete tiros. "Não houve confronto. Eles invadiram as casas e executaram o casal na frente dos filhos!"
O casal morto em Bauru deixa um vazio irreparável e a impossibilidade de justiça. Se houve de fato crime, que fossem julgados, e não executados na frente dos filhos. O trauma das quatro crianças que testemunharam a morte violenta de seus pais, um ato que a legislação brasileira proíbe - a pena de morte - evidencia a crueldade da ação e a falência do devido processo legal. Sem julgamento, a execução é a sentença imposta.O Acampamento Aliança surgiu em 2021, em meio à pandemia da Covid-19, quando famílias sem acesso à moradia se organizaram coletivamente para garantir o direito constitucional à habitação.
A operação desta terça-feira aprofunda a sensação de vulnerabilidade enfrentada por comunidades já marcadas pela exclusão social, pela precariedade de políticas públicas e pela violência do Estado. Uma moradora que não quis ser identificada afirmou que uma semana antes do ocorrido nesta terça-feira, outro residente do acampamento foi morto pela Polícia Militar.
A ausência das Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) é o dado mais incriminador da operação.
Violação ao STF: A Polícia Militar de São Paulo ignora o acordo homologado pelo STF que expandiu a obrigatoriedade do uso das câmeras, especialmente em incursões a comunidades vulneráveis como o Acampamento Aliança. A decisão judicial visa justamente reduzir a letalidade e aumentar a transparência, princípios que foram jogados ao vento em Bauru.
Encobrimento e Impunidade: Com um efetivo de câmeras (cerca de 15 mil) insuficiente para toda a tropa (80 mil PMs), o planejamento tático deveria priorizar o uso em operações de alto risco. A escolha de operar sem o registro audiovisual em uma ação que gerou cinco mortes sugere uma tática deliberada para impedir a comprovação das denúncias de execução e garantir a impunidade dos agentes.
Dados do projeto Mapas da (In) Justiça, do Centro de Pesquisa Aplicada em Direito e Justiça Racial da FGV, escancaram a engrenagem de impunidade que sustenta a letalidade policial em São Paulo. Entre 2018 e 2024, nenhum policial em atuação no estado foi responsabilizado por abordagens letais e violentas. Segundo a pesquisa, nenhum agente foi preso por mortes ocorridas em ações policiais e, em todos os casos analisados, o Ministério Público optou pelo arquivamento dos processos. Em apenas 8,9% das ocorrências houve perícia no local do crime, evidenciando a ausência de investigação mínima exigida em casos de morte.
O levantamento revela um padrão reiterado de naturalização da violência de Estado, sustentado pela reprodução acrítica das narrativas oficiais. Sem provas materiais, perícias ou testemunhas independentes, os boletins de ocorrência passam a funcionar como instrumentos de legitimação da versão policial, convertendo execuções em supostos confrontos e silenciando as vítimas.
É nesse contexto de mortes sem resposta e processos sistematicamente encerrados que surgiu em 2024 o Vozes das Periferias Bauru, movimento social formado por mães, pais e familiares de vítimas da violência policial. Unidos pela dor e pela ausência de justiça, eles transformaram o luto em luta, exigindo verdade, responsabilização e o fim da impunidade que autoriza o Estado a matar. O movimento fica cada vez mais forte evidenciado por execuções como a que aconteceram hoje no Aliança.
Diante desse histórico de impunidade, familiares das vítimas e moradores do Acampamento Aliança exigem a abertura de uma investigação independente, transparente e rigorosa, com responsabilização efetiva dos agentes envolvidos. Para defensores de direitos humanos, o caso é mais uma evidência de que a política de segurança pública do governador Tarcísio de Freitas opera sob um aval tácito para o uso de força letal desproporcional, sustentada pelo discurso recorrente da “legítima defesa” e pela negligência no uso e na fiscalização das câmeras corporais, o caso que deu início à luta organizada de famíliares no interior de SP nasce da invasão com repressão dos PMs a um velório, caso que a mais de um ano tramita sem respostas.
Esse cenário, apontam especialistas, pavimenta o caminho para uma pena de morte velada no estado, aplicada de forma seletiva contra populações pobres, periféricas e marginalizadas e de maioria negra. A cobrança por justiça parte não apenas das famílias enlutadas, mas da própria sociedade, que exige que as mortes desses pais, ocorridas diante de seus próprios filhos, não sejam reduzidas a estatísticas nem arquivadas sem investigação. A demanda é clara: verdade, investigação e punição rigorosa dos responsáveis.








