Letalidade policial em alta, disputa entre PM e Polícia Civil e pressão sobre Derrite revelam crise política e institucional na segurança do estado de São Paulo.
Crise nas polícias de SP: o que está em jogo no racha entre PM e Polícia Civil
Letalidade policial em alta, disputa entre PM e Polícia Civil e pressão sobre Derrite revelam crise política e institucional na segurança do estado de São Paulo.
A segurança pública de São Paulo vive uma crise que vai além da explosão da letalidade policial. A tensão entre as próprias corporações, especialmente entre a Polícia Militar e a Polícia Civil, escancara um cenário de desorganização interna, disputas políticas e jogos de poder que colocam em xeque a eficácia e a legitimidade do sistema.
Desde os primeiros meses da gestão Tarcísio de Freitas, já se observava um clima de descontentamento por parte da Polícia Civil. Ainda em 2024, a decisão do governo de autorizar PMs a registrarem Termos Circunstanciados (documentos usados em ocorrências de menor gravidade) foi recebida como uma afronta institucional e um esvaziamento de suas funções históricas. O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo chegou a afirmar publicamente que a categoria estava sendo preterida e desprestigiada pelas decisões do secretário Guilherme Derrite.
A insatisfação se agravou com a tramitação da nova Lei Orgânica da Polícia Civil, um projeto que visa atualizar a estrutura administrativa e o funcionamento da corporação, incluindo regras sobre ingresso, promoções, regime disciplinar e carreira. A proposta, construída sem diálogo efetivo com a categoria, é vista por muitos policiais civis como um instrumento de controle político do Executivo sobre a instituição.
Enquanto isso, a gestão de Derrite optou por fortalecer a PM e adotar uma política de segurança baseada na lógica do extermínio, especialmente nas periferias. A chamada Operação Escudo, iniciada ainda em 2023 após o assassinato de um policial da Rota, resultou em uma sequência de abusos de poder em comunidades do litoral paulista. Relatórios apontam que, apenas nessa operação, dezenas de pessoas teriam sido executadas.
O Ministério Público de São Paulo, responsável por investigar essas ocorrências, arquivou a imensa maioria dos casos. Segundo dados levantados pela Ponte Jornalismo em janeiro de 2025, 23 das 27 investigações sobre mortes causadas pela PM na Operação Escudo foram arquivadas sem responsabilização dos agentes.
Os números da letalidade policial também explodiram. De acordo com o Mapa da Segurança Pública de 2025, divulgado pelo Ministério da Justiça, o número de mortes por intervenção de agentes do Estado em São Paulo aumentou 61,31% em relação a 2023. Foram 504 mortes registradas em 2023, contra 813 em 2024, enquanto o restante do país apresentou uma redução de 4,02% no mesmo indicador. Esse salto evidencia não só a escalada da violência estatal, como também a consolidação de uma política armada voltada quase exclusivamente contra a população pobre, negra e periférica. Em vez de segurança, a sensação nas comunidades é de ocupação armada e terror.
O desgaste se aprofunda ainda mais diante das sucessivas denúncias de envolvimento de policiais com o crime organizado. O assassinato de um integrante do PCC no Aeroporto de Guarulhos, em fevereiro de 2025, desencadeou uma série de investigações que revelou indícios de conexões entre policiais e facções. O próprio Ministério Público acendeu um alerta e iniciou investigações internas, colocando ainda mais pressão sobre o secretário Derrite.
Diante de tantas frentes de crise, já circulam dentro do próprio governo propostas de “saída negociada” para Guilherme Derrite. Além do desgaste crescente, pesa o fato de que seu nome é cotado para disputar algum cargo em 2026. Essa movimentação político-eleitoral é mal vista por parte da Polícia Civil, que enxerga na figura do secretário um dos principais articuladores da centralização do poder e da militarização da segurança pública. Matérias recentes de junho de 2025 indicam que até mesmo nomes da base do governo consideram que a permanência de Derrite se tornou insustentável.
Ao olhar o quadro geral, o que se vê é um sistema em colapso: de um lado, a PM fortalecida politicamente e empregada como força de choque de um projeto de repressão letal; de outro, uma Polícia Civil sucateada, desprestigiada e em conflito aberto com a cúpula do governo. No centro, a população paga o preço, vítima de uma política que combina autoritarismo, impunidade e oportunismo eleitoral. Não se trata apenas de um problema de gestão, mas de um modelo falido que transforma a violência em palanque e o Estado em máquina de guerra contra seu próprio povo.








