Relatório da ONU aponta queda nos casos de desnutrição crônica, mas especialistas alertam que a fome persiste sob novas formas e exige políticas públicas permanentes
Por Andressa Marques
O Brasil saiu novamente do Mapa da Fome das Nações Unidas, segundo o relatório “O Estado da Insegurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI)”, divulgado neste mês. O dado representa um avanço: menos de 2,5% da população brasileira está em desnutrição crônica, segundo a FAO. No entanto, o mesmo levantamento aponta que 28,5 milhões de pessoas no país ainda enfrentam algum grau de insegurança alimentar — sendo 21,4 milhões em situação moderada e 7,1 milhões em situação grave.
O retorno ao mapa em 2021 foi resultado direto do desmonte de políticas públicas nos anos anteriores, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), além da condução do governo Bolsonaro e os impactos da pandemia. Já a atual retomada de ações como o Bolsa Família, a reativação do CONSEA e a ampliação da merenda escolar contribuíram para a melhora nos índices. Para o geógrafo José Raimundo Ribeiro, no entanto, sair do mapa não significa o fim da fome, mas apenas da fome em seu estágio mais agudo.
A chamada “fome oculta”, que atinge quem se alimenta mal ou em pouca quantidade, ainda é uma realidade cotidiana. O conceito amplo de fome, defendido por pesquisadores como Josué de Castro desde os anos 1940, considera que é possível morrer de fome ao longo de uma vida inteira, mesmo comendo todos os dias. A insegurança alimentar é, portanto, uma forma menos visível — mas igualmente grave — de privação alimentar, impulsionada por baixos salários, desemprego e o alto custo dos alimentos.
Especialistas também alertam para os limites da métrica atual, baseada na desnutrição crônica e no consumo abaixo de 1.800 calorias diárias. A metodologia, criada para monitorar situações extremas em países em guerra ou catástrofes, não dá conta da complexidade da fome brasileira. Segundo Ribeiro, o retorno de projetos ultra liberais e autoritários pode colocar o país de volta ao mapa, caso políticas de distribuição de renda, valorização do salário mínimo e acesso à terra sejam novamente enfraquecidas.
Apesar do Brasil ser uma potência agrícola, o paradoxo da fome persiste. A concentração fundiária, o avanço do agronegócio sobre áreas produtivas e o modelo econômico que beneficia grandes proprietários mantêm milhões em situação de vulnerabilidade. Para romper esse ciclo, o combate à fome não pode depender apenas de gestões pontuais, mas de um projeto estrutural de soberania alimentar, com participação popular e políticas de Estado que resistam às trocas de governo.








