O advogado Nelson Wilians, que construiu as fundações de seu império jurídico em Bauru e foi homenageado com o título de "Cidadão Bauruense", encontra-se no epicentro de um dos maiores escândalos financeiros do Brasil.
Relatório do COAF revela movimentações atípicas de R$ 4,3 bilhões ligadas a Nelson Wilians
Bauru, SP – Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) revelou movimentações financeiras "atípicas" de R$ 4,3 bilhões em contas ligadas a Wilians e suas empresas. As transações são investigadas por sua conexão com um esquema de fraude bilionária que lesou milhões de aposentados e pensionistas do INSS.
A trajetória de Wilians é profundamente entrelaçada com Bauru. Nascido em uma família de agricultores no Paraná, foi na cidade que sua carreira decolou. Durante o dia, trabalhava no RH da Santa Casa de Misericórdia e, à noite, cursava Direito na Instituição Toledo de Ensino (ITE). Após passar no exame da OAB, abriu seu primeiro escritório na cidade, em parceria com Adirson de Oliveira Júnior, antes de transferir a matriz para São Paulo em 1999.
Essa imagem de "self-made man" com raízes bauruenses foi coroada em julho de 2024, quando se tornou o primeiro advogado a estampar a capa da revista Forbes Brasil, que celebrou sua "trajetória inspiradora".
A investigação aponta para um esquema classificado por um senador como o "mais cruel" da história recente do Brasil. Associações como a Ambec realizavam descontos mensais não autorizados, geralmente de valores baixos como R$ 45,00, nos benefícios de mais de 4,1 milhões de aposentados, totalizando um prejuízo estimado em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
A ligação entre Wilians e o esquema se dá, segundo a Polícia Federal, através do empresário Mauricio Camisotti, apontado como um dos operadores da fraude e preso preventivamente. Wilians admitiu à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga o caso ter uma relação profissional e de amizade com Camisotti desde 2015.
O que mais chamou a atenção dos investigadores foi uma inversão financeira incomum: Wilians e suas empresas deviam milhões a Camisotti, seu cliente. Duas dívidas estão sob escrutínio:
A suspeita é de que esses contratos pudessem ser fictícios ou superfaturados. Nessa hipótese, o escritório de Wilians funcionaria como uma "lavanderia" para o dinheiro ilícito obtido da fraude, recebendo os valores de Camisotti e os devolvendo em parcelas documentadas e aparentemente legais.
Convocado a depor na CPMI em 18 de setembro de 2025, Nelson Wilians, protegido por um habeas corpus do STF, optou por permanecer em silêncio diante das perguntas sobre as movimentações bilionárias e sua relação com Camisotti.
A recusa em cooperar resultou em ações severas por parte da CPMI, que aprovou a quebra de seus sigilos bancário e fiscal e, em 25 de setembro de 2025, um requerimento pedindo sua prisão preventiva, citando "riscos de obstrução da investigação e continuidade delitiva". Anteriormente, a Polícia Federal já havia solicitado sua prisão ao STF, que foi negada pelo ministro André Mendonça, embora as buscas em sua residência e escritório tenham sido autorizadas.
A quebra dos sigilos promete ser decisiva para o futuro do advogado. O capítulo final determinará se o legado do "menino de Bauru" será o do sucesso empresarial ou o de peça-chave em uma das fraudes mais cruéis contra os mais vulneráveis do país.








