A quebrada segue à margem da legalização da cannabis. Entenda por que a justiça não chega igual pra todo mundo.
No mesmo Brasil em que jovens negros são assassinados pela polícia por portar um baseado, o Estado corre pra regulamentar o uso medicinal da cannabis e abrir as portas pra um mercado bilionário.
Essa contradição escancara uma realidade:a legalização da maconha no país está sendo moldada não pra reparar injustiças históricas, mas pra criar uma nova fronteira de lucro pra elite.
Recentemente, o STF descriminalizou o porte de pequenas quantidades de maconha para uso pessoal.
A decisão, embora avance na pauta, não atinge o coração do problema: a seletividade penal.
O que mudou na prática pra quem é preto, pobre e mora na periferia? Muito pouco.
O julgamento continua sendo feito pelo olhar da polícia — e esse olhar sempre foi treinado pra ver o corpo negro como ameaça.
Enquanto isso, o governo federal apresentou um plano de ação para regulamentar o uso de fármacos derivados de cannabis, prometendo normas até setembro.
A proposta inclui articulação entre ministérios, diálogo com o setor farmacêutico e foco em pesquisa.
Mas o que parece avanço carrega uma armadilha: transformar a planta em commodity, reservada ao mercado, com acesso garantido só pra quem pode pagar. A história da proibição da maconha no Brasil é também a história do controle social sobre a negritude.
O “fumo do negro”, como era chamado no início do século XX, foi criminalizado como forma de reprimir práticas culturais africanas e reforçar o projeto higienista da elite branca.
A guerra às drogas, aqui, nunca foi sobre saúde pública — foi sobre manter o povo preto sob vigilância e oprimido. Além do impacto direto sobre corpos negros e periféricos, a proibição também serve a outro interesse poderoso: o das grandes indústrias farmacêuticas.
A cannabis é uma planta que oferece propriedades terapêuticas para dores crônicas, epilepsia, ansiedade, distúrbios do sono, inflamações, efeitos colaterais da quimioterapia, entre muitos outros usos médicos. Isso sem falar no seu potencial industrial — pode substituir plástico, papel, tecido, concreto e até combustível. Ou seja, estamos falando de uma planta que, se livremente cultivada e manipulada pelo povo, reduziria drasticamente a dependência de medicamentos caros e de produtos industrializados. E isso representa uma ameaça direta aos lucros de um dos setores mais lucrativos do capitalismo global: a indústria farmacêutica. Por isso, o que poderia ser libertação vira mercadoria controlada. A cannabis só é aceita quando vem com código de barras e bula corporativa. A mesma planta que poderia estar no quintal da dona Maria, virando chá, pomada ou óleo, precisa agora de receita médica, laudo, CRM e muitas vezes de uma liminar na Justiça. Não há legalização possível sem justiça social. Não há avanço real se quem sempre sofreu com a repressão continuar fora da mesa onde se decide o futuro da política de drogas.
O que vemos hoje é a repetição da velha história: o que era crime na favela vira produto na farmácia dos Jardins. Legalizar é preciso.
Mas só fará sentido se vier com reparação histórica, anistia pra quem foi preso por plantar, acesso popular ao tratamento, fomento à agricultura familiar e fim da guerra às drogas que só mata o povo preto.
Sem isso, não é legalização.
É só mais um negócio da branquitude.








