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Resumo: Mulheres, Raça e Classe - o que Davis está nos dizendo?

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Resumo: Mulheres, Raça e Classe - o que Davis está nos dizendo?

O livro de Angela Davis é uma análise completa e profunda sobre a forma de correlação entre o gênero, a raça e a classe. Resumo por Uma Preta Ensinou:

O livro de Angela Davis é uma análise completa e profunda sobre a forma de correlação entre o gênero, a raça e a classe. Resumo por Uma Preta Ensinou:
A autora inicia seu texto falando sobre: O legado da escravidão: parâmetros para uma nova condição da mulher (DAVIS, 2016).
Seu primeiro argumento é de que as mulheres negras historicamente, se comparado com as mulheres brancas, tiveram seu processo de trabalho mais intenso em relação às duplas ou triplas jornadas que reproduzem padrões estabelecidos nos anos de escravidão. Explica que: “Como escravas, essas mulheres tinham todos os outros aspectos de sua existência ofuscados pelo trabalho compulsório” (DAVIS, 2016, p.17).
Informa que o povo negro, enquanto uma propriedade do sistema escravista, as mulheres negras, dentro dessa lógica, não eram nem mesmo consideradas como mulheres, já que a ideologia da feminilidade não abarcava mulheres negras, as mesmas eram consideradas para trabalharem nas lavouras tanto quanto os homens. Explica:
No que dizia respeito ao trabalho, a força e produtividade sob a ameaça do açoite eram mais relevantes do que questões relativas ao sexo. Nesse sentido, a opressão das mulheres era idêntica à dos homens. Mas as mulheres também sofriam de forma diferente, porque eram vítimas de abuso sexual e outros maus-tratos bárbaros que só poderiam ser infligidos a elas (DAVIS, 2016, p. 19).
Para além disso, as mulheres negras após a abolição do tráfico internacional de escravos, a autora explica que a capacidade reprodutiva das escravas era a forma de reposição da força de trabalho escrava para os engenhos. Forçadas a se separarem de seus filhos, essas mulheres tampouco eram consideradas como donas de casa, no máximo a “bá” que cuida, lava, passa, cria os filhos dos senhores e alimenta a todos em uma servidão completa.
Já as mulheres brancas, a autora conta que com o processo de industrialização se aprofundando novos processos de trabalho foram desenvolvidos, sendo que:
Á medida que a ideologia da feminilidade — um subproduto da industrialização — se popularizou e se disseminou por meio das novas revistas femininas e romances, as mulheres brancas passaram a ser vistas como habitantes de uma esfera totalmente separada do mundo do trabalho produtivo. A clivagem entre economia doméstica e economia pública, provocada pelo capitalismo industrial, instituiu a inferioridade das mulheres com mais força do que nunca. (…) Os arranjos econômicos da escravidão contradiziam os papeis sexuais hierárquicos incorporados na nova ideologia (DAVIS, 2016, p. 24–25).
Já que o local das mulheres brancas na época da escravidão nunca foi o de trabalho braçal, esse sempre foi o lugar ocupado por mulheres negras. Conta também um pouco da experiência das mulheres negras em relação ao conceito, formação de famílias e a vida nas senzalas analisando a divisão do trabalho “doméstico” e as formas de poder existentes na casa grande e nas senzalas diferenciando por consequência a forma de relação, respeito e hierarquia estabelecidos.
As mulheres negras eram iguais a seus companheiros na opressão que sofriam; eram socialmente iguais a eles no interior da comunidade escrava; e resistiam à escravidão com o mesmo ardor que eles. Essa era uma das grandes ironias do sistema escravagista: por meio da submissão das mulheres à exploração mais cruel possível, exploração esta que não fazia distinção de sexo, criavam-se base sobre as quais as mulheres negras não apenas afirmavam sua condição de igualdade em suas relações sociais, como também expressavam essa igualdade em atos de resistência (DAVIS, 2016, p. 35–26).
Em seu segundo tópico: “O movimento antiescravagista e a origem dos direitos das mulheres” (DAVIS, 2016) o livro leva as leitoras a um processo complexo de reflexão sobre o local das mulheres negras nas sociedades colonizadas, e particularmente falando dos Estados Unidos. Com uma narrativa potente, acertiva e direta Angela Davis aponta o histórico do movimento sufragista e a condição das mulheres negras nessa movimentação social narrando diversas etapas da luta, dos debates que aconteciam e da correlação de forças entre os movimentos de mulheres brancas, de homens negros, de mulheres negras e de todos aqueles que estavam debatendo sobre o processo de direito ao voto nos EUA.
Conta sobre as mudanças geradas pela Revolução Industrial, pelo sistema fabril e como isso afetou a vida das mulheres, sempre fazendo a intersecção entre a raça, a classe e o gênero. Defende que a inferioridade feminina foi reforçada e teve um aumento com esse processo histórico. O que gerou iniciativas de organizações sociais das mulheres, as chamadas feministas assim como o movimento antiescravagista e demais organizações operárias.
A partir de uma análise dialética da realidade, a autora explica como essas organizações se apoiavam, discutiam os temas e tinham suas deliberações construindo as lutas dos direitos das pessoas dos EUA. No tópico: “Classe e raça no início da campanha pelos direitos das mulheres” (DAVIS, 2016) traz experiência de reuniões, da Convenção de Seneca Falls e de diversos outros encontros que por muitas vezes reforçaram o apagamento das mulheres negras e de suas realidades. Traz também experiências de revoltas ocorridas no Sul e explorações da mão de obra do Norte.
Vai explicar ainda no tópico: “Racismo no movimento sufragista feminino” (DAVIS, 2016) a relação entre os movimentos negros e os movimentos de mulheres. Fala também sobre: “O significado de emancipação para as mulheres negras” (DAVIS, 2016) nesse processo de busca pela liberdade e a proporcionalidade que esse debate alcançava as mulheres negras trabalhadoras do campo, em contraposição das mulheres brancas que com frequência eram associadas como opressoras em relação as mulheres de minorias etnicas. No tópico: “Educação e libertação: a perspectiva das mulheres negras” (DAVIS, 2016) relembra a frase de Frederick Douglas que diz que: “o conhecimento torna uma criança inadequada para a escravidão” (Douglas, apud Davis, 2016, p. 108), a autora afirma que na luta pela educação as mulheres brancas eram aliadas importantes na batalha contra o analfabetismo.
Para debater sobre o racismo e o sufrágio feminino, utiliza o tópico:
O sufrágio feminino na virada do século: a crescente influência do racismo (DAVIS, 2016) que traz histórias e experiências desse período, assim como as legislações e debates promovidos naquele momento histórico.
Com a chegada do século XX, um casamento ideológico sólido uniu racismo e sexismo de uma nova maneira. (…) Mulheres brancas estavam aprendendo que, como mães, elas carregavam uma responsabilidade muito especial na luta para salvaguardar a supremacia branca, Afinal, elas eram as “mães da raça”. Embora o termo raça supostamente se referisse a “raça humana”, na prática — especialmente quando o movimento eugenista cresceu em popularidade — fazia-se pouca distinção entre “a raça” e “a raça anglo-saxã” (DAVIS, 2016, p. 130).
Explica também no tópico: “As mulheres negras e o movimento associativo” (DAVIS, 2016) sobre organizações de mulheres negras no período pré-guerra civil e o apoio a luta antiescravagista, foi nesse período que surgiram as primeiras associações de mulheres negras e em 1895 aconteceu a Primeira Conferência Nacional das Mulheres de Cor em Boston. Dá continuidade nesse assunto em: “Mulheres trabalhadoras, mulheres negas e a história do movimento sufragista” (DAVIS, 2016) e afirma que: “A igualdade política não abrira a porta da igualdade econômica” (DAVIS, 2016, p. 146) explicando todo o processo de luta e correlação de forças vividas. Fala ainda sobre a correlação da classe social e do envolvimento dos partidos políticos, mais especificamente em: “Mulheres comunistas” (DAVIS, 2016), traz a informação de que o Partido Socialista formou a comissão nacional de mulheres em 1908, para além da luta da população negra para que os movimentos de esquerda reconhecessem a centralidade do racismo e a necessidade de compreende-lo para realizar uma análise concreta da realidade.
Assim como debate sobre a necessidade de falar sobre as condições de vida dos homens negros e seus estereótipos no tópico: “Estupro, racismo e o mito do estuprador negro” (DAVIS, 2016). Trazendo outra complexidade da vida da população negra nos EUA, Angela Davis aborda também o “Racismo, controle de natalidade e direitos reprodutivos” (DAVIS, 2016) em que coloca em debate o processo de controle de natalidade recaído em cima de mulheres negras, através de práticas eugenistas que forçavam mulheres pobres a optarem pela infertilidade permanente (DAVIS, 2016, p. 208). Por ultimo, mas não menos importante, traz reflexões acerca do trabalho doméstico em: “A obsolescência das tarefas domésticas se aproxima: uma perspectiva da classe trabalhadora” (DAVIS, 2016) e explica:
(…) a economia capitalista é estruturalmente hostil à industrialização das tarefas domésticas. (…) Uma vez que, em termo de lucro, o resultado seria pequeno (…) Em outras palavras, a industrialização das tarefas domésticas, junto com sua socialização, está se tornando uma necessidade social concreta. As tarefas domésticas, enquanto responsabilidade individual reservada às mulheres e trabalho feminino realizado sob condições técnicas primitivas, finalmente podem estar chegando ao ponto de obsolescência histórica (DAVIS, 2016, p. 226).
Explica de forma didática que o capitalismo é diretamente dependente do trabalho doméstico, e afirma que como mulheres, trabalhadoras e militantes podemos gerar grandes transformações sociais e de combate ao sistema capitalista. Esse livro é de grande valia para entendimento e construção do debate racial nos EUA e no mundo, a autora conclui refletindo sobre a importância da intersecção dessas lutas e movimentos sociais. Vale muito a leitura! Me conta o que achou…
Referência Bibliográfica:
DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016
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