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Cultura

O Silenciamento do Sagrado

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O Silenciamento do Sagrado

Racismo Religioso e o apagamento das culturas afro-brasileiras.

Racismo Religioso e o apagamento das culturas afro-brasileiras.
Neste 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, conforme estabelecido no calendário brasileiro, é importante reforçar que o termo "intolerância" sugere um mero conflito de ideias, o que, na prática, não condiz com o contexto socio-histórico-político brasileiro. O que temos aqui é o racismo religioso, que se revela como um projeto de poder que demoniza as divindades e ritos de matriz africana para manter a hierarquia racial. Atacar o terreiro é uma tentativa de desumanizar o corpo negro e sua conexão com a ancestralidade, transformando o sagrado em alvo de violência sistêmica para preservar privilégios coloniais.
O sociólogo Guerreiro Ramos já nos alertava que o negro deve ser visto como o sujeito ativo da nossa história, e não como um "tema" exótico ou um problema a ser resolvido. Para ele, o apagamento das contribuições negras na formação do país é uma forma de alienação nacional. Quando a sociedade nega o valor das religiões de matriz africana, ela está, na verdade, negando os pilares civilizatórios do Brasil. O racismo religioso atua exatamente nesse ponto: ele tenta esconder que a inteligência, a organização social e a ética brasileiras foram forjadas dentro das periferias, comunidades de axé, aldeias e quilombos.
Lélia Gonzalez afirma que o ataque às religiões afro-brasileiras é uma estratégia para destruir a memória coletiva e as tecnologias de resistência que permitiram ao povo negro sobreviver ao processo colonial. Ao demonizar o sagrado, o sistema tenta apagar o fato de que a nossa cultura — do vocabulário que ela chamava de "pretoguês" até as nossas formas de afeto — está intrinsecamente ligada aos valores dessas comunidades.
O apagamento das contribuições afro-brasileiras não é um erro de percurso, mas a manutenção da "neurose" brasileira descrita por Lélia, onde se deseja a cultura, mas se rejeita o povo que a criou. Sem o reconhecimento do papel central das tradições de matriz africana, o Brasil permanece incapaz de entender sua própria identidade e potencialidade.
Combater o racismo religioso e o apagamento cultural é um compromisso com a verdade histórica. Valorizar os terreiros e as expressões afro-brasileiras é reconhecer que eles não são apenas locais de fé, mas centros de preservação da inteligência e da dignidade nacional. A libertação do Brasil passa, obrigatoriamente, pelo fim da perseguição ao sagrado preto e pela aceitação definitiva de que somos uma nação amefricana, construída sobre o fundamento e o axé de quem veio antes de nós.Lucas Castro de Jundiaí, Coordenador do Emancipa AXÉ
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