Enquanto Bauru é utilizada como laboratório para um programa de vigilância de custos opacos, investimento que negligencia as verdadeiras causas do crime e desvia recursos de soluções sociais comprovadas.
O programa Muralha Paulista, do Governo do Estado de São Paulo, é oficialmente apresentado como uma ferramenta tecnológica avançada no combate ao crime. No entanto, uma análise crítica do programa revela uma política pública de alto custo, socialmente prejudicial e com um alarmante déficit de transparência. Bauru, escolhida como "Prova de Conceito" (POC) para o projeto, é um microcosmo de como o estado tem optado por investir em vigilância punitiva em detrimento de abordagens que realmente promovem a segurança social.
Bauru foi designada para o projeto-piloto, recebendo a instalação direta de 70 novas "câmeras inteligentes" fornecidas pelo estado, em um acordo formalizado pela prefeita Suéllen Rosim. Nos primeiros 15 dias de operação, o governo celebrou a prisão de quatro foragidos e a recuperação de três veículos.
O que não foi celebrado nem mesmo divulgado foi o custo. Ao anunciar o projeto, o Secretário de Segurança Pública não forneceu detalhes sobre o valor do investimento, o custo das câmeras ou se haveria contrapartida financeira do município.
Essa falta de transparência impede que qualquer análise real seja feita. Conforme aponta o relatório, o custo por prisão ou por veículo recuperado, dado o alto preço de sistemas de IA, é provavelmente "astronômico". O governo constrói uma narrativa de "sucesso por opacidade", onde resultados operacionais mínimos são usados para justificar um gasto público desconhecido.
Ao descartar a desigualdade como causa raiz, o estado justifica o desvio de investimentos que deveriam ser destinados à educação, saúde e emprego, em favor de soluções tecnológicas e punitivas de alto custo. Na prática, é uma justificativa para transferir fundos públicos para empresas privadas de tecnologia e segurança, absolvendo o estado de sua responsabilidade em atacar as causas fundamentais do crime.
A análise do orçamento estadual torna essa escolha ainda mais clara. Para 2025, a Segurança Pública tem uma projeção orçamentária de R$ 20,3 bilhões. Enquanto milhões são investidos de forma opaca no Muralha Paulista, o mesmo governo cortou R$ 37,3 milhões do programa de câmeras corporais para policiais.
A diferença é estratégica. As câmeras corporais são ferramentas projetadas para monitorar a conduta policial e proteger o cidadão contra o abuso de poder. O Muralha Paulista é uma ferramenta de controle, projetada para monitorar a população civil. O governo está, ativamente, desfinanciando a vigilância sobre seus agentes enquanto financia agressivamente a vigilância sobre seus cidadãos.
Este sistema de vigilância em massa não é neutro. Ele funciona como um instrumento de repressão social, visando especificamente comunidades periféricas e minorias raciais. O uso do reconhecimento facial é uma forma de "racismo algorítmico", considerado uma "atualização do racismo estrutural".
O ciclo é auto criado, o racismo estrutural leva ao policiamento excessivo de comunidades negras e periféricas, o que gera dados policiais enviesados. Os algoritmos são treinados com esses dados e, em seguida, o Muralha Paulista usa essa tecnologia para sinalizar indivíduos dessas mesmas comunidades, criando uma "profecia autorrealizável" que justifica o viés policial inicial. É a tecnologia servindo para automatizar e "lavar" o racismo estrutural.
O governo adota o "tecnossolucionismo", negligenciando alternativas baseadas em evidências. Muitas dessas soluções estão enraizadas nas mesmas causas sociais que o "Muralha Paulista" decide ignorar.
O montante destinado a câmeras de vigilância caras e ineficazes poderia ser realocado para iniciativas que realmente combatam as raízes da criminalidade e fortaleçam a comunidade: Investir em educação e geração de empregos é fundamental para atacar as causas estruturais do crime. Programas sociais abrangentes, que reduzem a pobreza e a desigualdade social, têm um impacto direto e comprovado na diminuição das taxas de criminalidade. Adotar modelos de policiamento comunitário que priorizem a construção de confiança mútua entre a polícia e a população é essencial, em contraposição à vigilância que muitas vezes mina essa relação.
Enquanto se investe em tecnologias de vigilância de custos astronômicos, a valorização dos profissionais de segurança pública é posta em xeque. Um policial militar em início de carreira em São Paulo tem um salário inicial de aproximadamente R$ 4.850.
Essa disparidade salarial, somada aos cortes em programas essenciais como as câmeras corporais para policiais, revela uma escolha clara do governo: investir prioritariamente em softwares e sistemas de controle, em detrimento do capital humano e de ferramentas que promovem a transparência e a segurança dos próprios agentes. A mensagem é clara: a tecnologia de vigilância é preferida à valorização e ao apoio aos próprios policiais que atuam na linha de frente.
A segurança genuína não é construída com muralhas digitais que vigiam a periferia. Ela é construída com "inclusão social, oportunidade econômica e um contrato social funcional". A questão que fica para Bauru e todo o estado de São Paulo é: estamos investindo para resolver o crime ou apenas para gerenciá-lo tecnologicamente, aprofundando o abismo social?







