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Muralha Paulista em Bauru: Tecnologia Racista e o Sangue nas Mãos do Secretário de Tarcísio

5 min de leitura
Muralha Paulista em Bauru: Tecnologia Racista e o Sangue nas Mãos    do Secretário de Tarcísio

Bauru (SP) recebe programa de vigilância com reconhecimento facial, liderado por Guilherme Derrite, um secretário cuja trajetória é manchada por acusações de chacinas e a explosão da letalidade policial em São Paulo.

Bauru (SP) recebe programa de vigilância com reconhecimento facial, liderado por Guilherme Derrite, um secretário cuja trajetória é manchada por acusações de chacinas e a explosão da letalidade policial em São Paulo.
A Ideologia por Trás do Muro: Rejeitando o Social, Abraçando o Controle
Autoria: Gabriel Demetrius
A justificativa do programa Muralha Paulista, delineada no Decreto nº 68.828 de 2024, revela uma escolha política explícita. O governo de São Paulo posiciona a iniciativa como uma superação do "consenso académico nacional, que enxerga o fenômeno do crime pela ótica da desigualdade social". Adotando a tese do economista Gary Becker, o Estado define o crime não como um sintoma de fraturas sociais, mas como um cálculo de custo-benefício. A solução, portanto, não é investir em educação ou emprego, mas aumentar a punição através da tecnologia para tornar o crime um "mau negócio".
Essa ideologia desonera o Estado de sua responsabilidade em enfrentar as causas da violência, como pobreza e racismo estrutural, e transforma a segurança em uma mercadoria tecnológica. Recursos públicos que poderiam atacar as raízes do problema são desviados para um lucrativo mercado de tecnologias de controle.
A tecnologia da Muralha Paulista, apresentada como avanço, é um novo disfarce para o racismo estrutural. O reconhecimento facial, peça central do sistema, não é neutro. Esta não é uma falha acidental, mas uma característica sistémica que automatiza preconceitos sociais.
A parcialidade dos algoritmos é um fato documentado mundialmente. Um teste da ACLU com o software da Amazon, comercializado para polícias, identificou falsamente 28 membros do Congresso dos EUA como criminosos, sendo que 40% dos erros visaram congressistas negros, que eram apenas 20% do grupo.
No Brasil, a realidade é devastadora, um estudo da Rede de Observatórios de Segurança revelou que 90% das pessoas presas através de reconhecimento facial no país são negras. A tecnologia opera como um "arrastão digital", amplificando a seletividade racial do sistema de justiça. O problema reside nas bases de dados viciadas, que são produto de um policiamento que historicamente persegue e encarcera de forma desproporcional as comunidades negras. Assim, a tecnologia serve para "lavar" o perfilamento racial, apresentando uma prática discriminatória como um resultado científico e neutro.
Cada "falso positivo" pode destruir uma vida inocente com abordagens violentas e prisões injustas. Em São Carlos, uma das cidades com o Muralha Paulista, uma mulher foi detida e algemada com base em um alerta do sistema, e sua inocência só foi confirmada após verificação manual na delegacia.
Quem lidera a implantação dessa "segurança moderna" em São Paulo e agora em Bauru é Guilherme Derrite, uma figura cuja carreira está diretamente associada à violência de Estado. Seu histórico é marcado por acusações gravíssimas e um rastro de sangue.
Durante as operações da Baixada Santista e Guarujá, que deixaram dezenas de mortos, Derrite minimizou denúncias de tortura como “narrativas” e atacou a imprensa que cobria os abusos, chamando-a de "canalha" e "fake news" (Sindicato dos Jornalistas SP, Metrópoles, Wikipédia). Deputados pediram seu impeachment por “omissão diante de abusos policiais, homicídios e racismo sistemático” (UOL Notícias). Organizações negras levaram denúncia à OEA, responsabilizando Derrite e Tarcísio pela escalada da letalidade policial contra jovens negros e periféricos, com 673 mortos em 2024 – a maioria negros (AlmaPreta).
Uma reportagem do Intercept Brasil revelou que, sob a gestão de Derrite, SP se tornou um campo fértil para milícias, com PMs aplaudindo cruzes em chamas e saudações dignas da KKK (Ku Klux Klan), organização supremacista branca e de extrema-direita criada nos Estados Unidos. Fundada após a Guerra Civil Americana, a KKK defende a supremacia racial branca, o nacionalismo branco e o anticatolicismo, e historicamente usou violência e intimidação contra afro-americanos e outras minorias.
A chegada do programa a Bauru não é um avanço tecnológico, mas a extensão de uma política de segurança autoritária. A adesão foi formalizada em uma reunião entre a prefeita Suéllen Rosim e Guilherme Derrite em 26 de agosto de 2025, selando uma forte sintonia política.
Estrategicamente, Bauru foi designada para sediar um projeto-piloto, uma "Prova de Conceito" (POC) do programa. A cidade foi transformada em um laboratório para a instalação de raiz das câmeras inteligentes, permitindo ao governo estadual testar e validar sua tecnologia em um ambiente controlado antes de expandi-la.
A Muralha Paulista encontrou um terreno fértil em Bauru, preparado pela agenda de segurança da prefeita Suéllen Rosim, que já demonstrava preferência por soluções punitivas. Um exemplo é o investimento de quase R$ 7 milhões na contratação de vigilantes armados para 48 locais públicos, incluindo 36 escolas. Cria-se um modelo híbrido de controle: o Estado fornece os "olhos" digitais onipresentes, enquanto o município fornece a "mão" armada no terreno.
Em suma, a chegada da Muralha Paulista a Bauru não representa a modernização da segurança pública, mas a materialização de uma política de Estado que disfarça repressão sob o manto da tecnologia. Não se trata de um fato isolado, mas da ponta de lança de um projeto de controle social que une o viés racista dos algoritmos à biografia violenta de seu principal articulador, Guilherme Derrite.
Ao abraçar essa iniciativa, a administração municipal, na figura de Suellen Rosim, escolhe alinhar Bauru não ao futuro, mas a um passado de segregação e violência, agora reempacotado em formato digital. A "segurança" prometida é, na verdade, a institucionalização da perseguição contra a população negra e periférica, que terá sua existência cotidianamente vigiada e criminalizada por um sistema comprovadamente falho e preconceituoso.
Portanto, a muralha que se ergue em Bauru não é para proteger seus cidadãos, mas para aprofundar abismos sociais, cimentada pela tecnologia do preconceito e legitimada por uma gestão manchada pela letalidade policial. É a oficialização de que, para o Estado, alguns corpos são alvos em potencial, e a justiça, um algoritmo de exclusão.
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